NÓS PODEMOS DIVINIZAR-NOS, MAS DEUS NÃO PODE HUMANIZAR-SE

 As teologias das religiões mais antigas receberam influências da mitologia, misturando a divindade com a humanidade.

É verdade que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, di-lo-nos a Bíblia. Mas é verdade, também, embora a Bíblia não o diga, que nós criamos Deus à nossa imagem e semelhança. É o que se chama antropomorfização de Deus. E, enquanto Deus nos criou semelhantes a Ele em espírito, às vezes, nós o criamos semelhante a nós em corpo.

Os teólogos cristãos do passado foram também vítimas da mitologia.

Por ser Jesus um homem de máxima perfeição humanamente possível, não deu outra. Os teólogos começaram logo a divinizá-lo. Eles agiram de boa fé, mas incorreram noutro erro teológico muito comum, isto é, o exagero das coisas relativas a Deus. É claro que eles acertaram em muitas de suas elucubrações teológicas, mas erraram, e grande, quando concluíram que Jesus é Deus Encarnado. Essa conclusão errada é o que se poderia denominar de uma antropomorfização oficial de Deus, e que se tornou a causa principal das antropomorfizações de Deus no decorrer dos séculos da história do cristianismo. E foi daí que surgiu o dogma da Santíssima Trindade com suas Três Pessoas, que devemos respeitar, mas que tornou confusa e complexa a concepção do Deus único e verdadeiro do monoteísmo cristão bíblico. 

Tudo começou com a divinização de Jesus no polêmico Concílio Ecumênico de Niceia (325), e a instituição oficial do Espírito Santo e, consequentemente, da Santíssima Trindade, no Concílio Ecumênico de Constantinopla (381). Nos originais bíblicos do Velho Testamento, em hebraico, e do Novo, em grego, O Espírito Santo é o espírito ou alma do homem. Portanto, o Espírito Santo é uma espécie de substantivo coletivo, que designa o conjunto de todos os espíritos humanos. E a Bíblia nos mostra que Jesus é de fato um homem e não outro Deus, que só pode mesmo ser um, a não ser que nós cristãos queiramos renegar o monoteísmo. “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. (São João 17:3). E, na parábola da videira e dos ramos, fica também evidente que Jesus é diferente de Deus, e é diferente exatamente porque Jesus é Deus relativo e não Deus absoluto. “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor, e vós os ramos”. (São João 15: 1 a 5). “... o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou.”(São João 13:16). “Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem”. (1Timóteo 2:5). 

Por todos esses textos bíblicos citados, fica evidente que Jesus Cristo, Filho de Deus, é inferior a Deus, o Pai. Assim, se a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ou seja, o Filho, fosse também Deus absoluto, não poderia ser menor do que Deus, o Pai, pois os dois seriam infinitos, não podendo um ser maior ou menor do que o outro.

Como se vê, a doutrina trinitária do cristianismo dogmático, em posição contrária à do cristianismo bíblico, complica a idéia sobre Deus, dificulta o entendimento entre o cristianismo e outras religiões monoteístas, divide os próprios cristãos e, o pior, incrementa a indiferença religiosa, a descrença em geral e o próprio ateísmo.

Pela nossa evolução de espíritos imortais e semelhantes a Deus que nós somos, e dentro da nossa possível perfeição humana, de algum modo, um dia, nós nos tornaremos divinos. Mas Deus não pode humanizar-se, pois Ele é imutável!

 

Obs.: Esta coluna, de José Reis Chaves, às segundas-feiras, no diário de Belo Horizonte, O TEMPO, pode ser lida também no site www.otempo.com.br Clicar colunas. Ela está liberada para publicações.

Ficarei grato pela citação nelas de meus livros: “A Face Oculta das Religiões”, “A Reencarnação na Bíblia e na Ciência” Ed. EBM (SP) e “A Bíblia e o Espiritismo”, Ed. Espaço Literarium, Belo Horizonte (MG) – www.literarium.com.br - e meu e-mail: jreischaves@gmail.com. Os livros de José Reis Chaves podem ser adquiridos também pelo e-mail: contato@editorachicoxavier.com.br e o telefone: 0800-283-7147.

Outros colunistas de O TEMPO: Miriam Leitão, Vittorio Medioli, Arnaldo Jabor, Dora Kramer, Laura Medioli, João Batista Libânio (teólogo Jesuíta), Elio Gaspari, Xico Sá, Luiz Carlos Bernardes, Torquato (USP), Luiz Aureliano, Gilda de Castro, Manoel Lobato, Murilo Badaró (Presidente da Academia Mineira de Letras), Robson Damasceno Reis, Cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho, Teodomiro Braga, Ana Elizabeth Diniz, Trigueirinho, Leonardo Boff, José Dirceu (ex-ministro do Lula) e outros.

 

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