Art&MusicaLSlides® Fauser - "Educação internética"

MEU IRMÃO RAUL MORA NA ALEMANHA E ATUA NO CAMPO DA EDUCAÇÃO, TENDO SIDO PROFESSOR NA ESCOLA WALDORF DESSE PAÍS.

ACHEI QUE PODERIAM TER INTERESSE EM LER ESTE ARTIGO, ONDE DENUNCIA OS PREJUIZOS DA SUPEREXPOSIÇÃO ELETRÔNICA A CRIANÇAS. 

A estupidificação internética da infância

RAUL GUERREIRO

Um ambiente económico cada vez mais globalizado e ferozmente concorrente faz com que as empresas busquem toda a espécie de novas soluções tecnológicas e novas estratégias na sociedade. Simultaneamente, os relatórios mundiais sobre mudanças climáticas anunciam previsões catastróficas para um futuro próximo. Isto deu origem a uma inevitável preocupação com o planeta Terra, essa casa de todos nós, mas muitas das mudanças de postura já realizadas simplesmente esquecem o Homem, e sobretudo a infância. Ninguém ousa falar da crise que vai nos cérebros infantis, e das suas consequências para as gerações vindouras.

O mundo da educação continua em busca sôfrega de soluções adaptadas aos tempos. Após a onda de cientifismo que tingiu o Século XIX, sobreveio uma educação baseada no hediondo culto da raça, que entre nós encontrou expressão na famigerada “Mocidade Portuguesa” fascista, decalcada da Juventude Hitleriana da Alemanha nazi. Agora, apesar da crise económica e dos vastos conflitos laborais, puramente humanos, que afligem a nossa classe docente, uma elite tecnocrata-comercial-política carente de uma verdadeira competência humanista continua a implementar entre nós uma parafernália de meios eletrónicos aplicados à educação.

A anterior distribuição em massa de meio milhão de laptops pelas escolas do país, por exemplo, foi anunciada como uma “revolução para a educação em Portugal” e um “projeto sem igual no mundo”, sendo que a maquineta foi imponentemente apresentada como autêntica janela para o futuro das novas gerações. Como entretanto já se sabe, o malfadado “Magalhães” foi um nome fantasioso (ou melhor, uma ofensa à memória do grande navegador) atribuído a um laptop Intel modificado de origem americana. Para a conquista de novos mercados, a empresa passou a celebrar acordos diretos com países (e governantes) subdesenvolvidos, para a montagem da máquina sob diversos nomes e versões. Portugal foi assim estrategicamente escolhido como país praticamente “terceiro-mundista”, mas integrado na Europa, para assegurar a assamblagem rentável de um minicomputador destinado à exportação para um mercado potencial infantil de proporções astronómicas. A “maravilha Magalhães” foi assim mais exatamente uma estratégia de marketing dedicada a um big business global, sendo que a infância portuguesa foi virtualmente explorada como combustível para um vasto evento promocional.

Mas o grande público e até educadores profissionais continuam a ser mantidos em ignorância acerca dos efeitos desastrosos dos computadores e uma infinidade de  na formação das personalidades infantis. Em Nova Iorque, por exemplo, após se descobrir há anos que muitos alunos estavam a usar os seus computadores para enviarem para os seus camaradas soluções para exames, filmes pornográficos, ou até fazer compras ilegais no comércio, foram apertadas as chamadas “medidas de controlo digital”. Mas as crianças rapidamente conseguiram contornar as barreiras, e até publicaram na internet a técnica para outros fazerem o mesmo. Além disso, em dias de provas a internet sofria colapsos por causa dos milhares de alunos que tinham os olhos cravados em seus ecrãs. Assim, as autoridades decidiram recolher as máquinas, devido a demonstrarem ser uma perfeita decepção educacional. Em outros casos, foram os próprios professores que se sentiram forçados a boicotar o seu uso. Um estudo do Departamento Nacional de Educação dos EUA demonstrou que não havia diferença no sucesso universitário entre jovens que anteriormente haviam usado, ou não, computadores para a aprendizagem das disciplinas mais críticas: a matemática e a leitura.

Um outro estudo realizado na Academia Americana de Pediatria evidenciou que jogos e brincadeiras reais, não digitais, desempenham um papel essencial na educação, contribuindo para o bem-estar cognitivo, físico, social e emocional.

Essas atividades oferecem ainda uma oportunidade ideal para pais e filhos se envolverem num verdadeiro convívio humano, algo que está em perigo de desaparecimento. Mas durante as últimas décadas as crianças perderam cerca de 12 horas de tempos livres por semana, enquanto que o período para desportos duplicou, e o número de minutos dedicados a atividades passivas cresceu de 30 minutos para mais do que 3 horas por semana – isto sem contar com os intervalos para a contemplação apática de uma televisão ou um computador. Um estudo demonstrou que as simples atividades lúdicas manuais, sem quaisquer meios eletrónicos à mistura, têm a capacidade de promover o quociente de inteligência (IQ), inclusive em crianças que sofrem de malnutrição e subestimulação, como é o caso de milhões de crianças nas sociedades menos abastadas. Infelizmente, sob o efeito conjugado de meios eletrónicos, vidas mergulhadas em stress, desintegração de famílias, atividades sedentárias ou a pressão governamental para se obter cada vez mais rapidamente “resultados mensuráveis”, muitos educadores passaram a considerar como supérfluas as atividades dos tempos livres, e cuidam da mera acumulação maquinal de conhecimentos. 

Outra pesquisa revelou que os melhores resultados em matemática e leitura foram alcançados por crianças que não tinham acesso a computadores em casa. E entre alunos dotados de computadores, o acesso à internet não revelou quaisquer benefícios. Na Universidade de Munique, um estudo realizado com o patrocínio da Volkswagen concluíu que a mera presença de um computador em casa está relacionada negativamente com o rendimento escolar das crinças. E a existência de computadores na escola demonstrou uma relação insignificante com o desempenho geral posterior dos alunos. O estudo veio confirmar anteriores pesquisas internacionais que já haviam determinado resultados decepcionantes para os computadores no processo educativo.

A realidade irrecusável é que tecnocratas intelectualóides e magnatas do mundo dos negócios estão a inundar a nossa população infantil com escolas virtuais, softwares, laptops, tablets, notebooks, telemóveis, smart-phones & Cia., enquanto que pais e familiares, na sua ignorância, consideram tudo isso uma espécie de acessórios ou brinquedos moderninhos que as crianças podem usar a bel-prazer. Além disso, conforme os miúdos parecem mostrar uma espécie de “habilidade superior à dos adultos” para lidar com uma infinidade de comandos e programinhas, muitos responsáveis sentem-se confortados e deixam de se interessar pelos seus desastrosos efeitos. Incompreensível entretanto é a atitude de muitos órgãos governamentais, ao ocultar sistematicamente as informações – a saber, os numerosos estudos que atestaram que o convívio prematuro entre as crianças e computadores, softwares e uma variedade de aplicações audiovisuais, retarda de maneira grotesca o desenvolvimento infantil, levando a uma dependência crónica para o resto da vida, bem como uma asfixia de muitas capacidades e habilidades inatas que são mais tarde essenciais para uma edificação equilibrada da personalidade e das competências sociais e profissionais.

Tudo isto decorre em meio aos novos desafios do meio-ambiente escolar e familiar. Nos últimos anos as nossas escolas perderam cerca de 200 mil alunos, mas começa-se a enfrentar cada vez mais verdadeiros pequenos tiranos bullyinguistas que não sabem conter os seus impulsos, nem regular as suas emoções, nem respeitar professores, pais e escola. Há agora até piquetes policiais, psicólogos e câmaras de videovigilância ao serviço das escolas, enquanto que um recentíssimo diploma governamental proibiu aos alunos o uso de aparelhos eletrónicos nas aulas. Praticamente como se fossem armas. Mesmo assim, cada vez mais crianças exibem uma debilidade que recebeu a pomposa sigla de “DHDA” (Distúrbio de Hiperatividade e Défice de Atenção). A neurobiologia já atestou que em numerosos casos trata-se de danos psicológicos e orgânicos derivados do consumo de meios eletrónicos na primeira infância. Mas pais e educadores deixam-se levar pelos argumentos apregoados pelos gurus digitais, e no fim das contas vêm-se forçados a administrar aos miúdos, por insistência oficial médica e escolar, medicamentos como a Ritalin, a fim de não receberem constantes advertências de professores fartos do comportamento buliçoso e desassossegado dos seus filhos na escola.

Essa abominável droga (e quem a recebe torna-se evidentemente um “drogado”), apenas amortece os efeitos e jamais vai ao fundo do problema. O seu consumo já aumentou mais de 100% em Portugal.

Uma novidade é que os tradicionais computadores estão a ser lentamente suplantados por tablets e smartphones de bolso com acesso internético. Tais equipamentos miniaturizados podem inclusive no futuro introduzir atrofias e deformações musculares, conforme os dedos polegares das crianças (os mais toscos e menos habilidosos) são os mais solicitados a dar comandos e realizar operações de datilografia. Mas o que está em causa não é só a deterioração da habilidade de escrever à mão, ou a necessidade de milhões de crianças no futuro terem que usar prematuramente óculos para compensar a deterioração da visão, devido a passarem horas a perscrutar minúsculos ecrãzinhos. O fenómeno do uso irrestrito de meios eletrónicos entre as crianças na fase pré-pubertária equivale a uma verdadeira deturpação do nosso universo infantil e da própria sociedade, uma vez que os incomensuráveis danos psíquicos e orgânicos provocados a longo termo ocorrem precisamente durante os delicados primeiros passos da conformação dos cérebros e das almas infantis, prejudicando-as definitivamente no seu desenvolvimento harmónico e saudável.

Um policiamento do uso que as crianças fazem dos modernos meios eletrónicos, seja computadores ou telemóveis de bolso da última geração, é simplesmente impossível. A maioria das famílias não tem tempo, nem conhecimentos, nem interesse para isso. Se as tradicionais psicodrogas Televisão & Jogos de Vídeo já não merecem qualquer censura pela maior parte dos pais (pelo contrário, são até muitas vezes bemvindas como distração aliviadora dos nervos dos adultos) como se pode esperar que uma família se comporte de maneira diferente perante mais uma maquineta em casa? Tal como tradicionalmente acontece com nicotina e álcool, quaisquer medidas preventivas para impedir abusos internéticos e certos acessos imorais (por exemplo, hoje em dia qualquer criança curiosa pode à vontade verificar online como uma mulher consegue fazer sexo com um cavalo), só poderão provocar o aparecimento de uma tensão adicional no seio das famílias, alimentando entre as crianças uma curiosidade natural ainda mais exaltada para ultrapassar obstáculos.

O Dr. Valdemar Setzer, da Universidade de São Paulo, vem estudando há muitos anos o tema dos meios eletrónicos e a educação. Consultado acerca do projeto português da “escola virtual”, ele declarou que semelhante medida resultará quase só inútil, ou altamente prejudicial. Suas palavras rigorosas e desabridas foram: “A eletronificação da educação só poderá levar ao aparecimento de adultos anti-sociais, com ideias fixas, passivos, fanáticos e pobres em forças de compaixão e criatividade”. O tema pode ser consultado em www.ime.usp.br/vwsetzer/#PCI que contém farta documentação.

Podemos sumarizar da seguinte forma os 10 principais efeitos que os meios eletrónicos exercem sobre crianças na fase pré-pubertária: (1) Inducão de uma admiração desmesurada por máquinas, conforme o complexo funcionamento dos computadores permanece incógnito; (2) Estímulo para a ideia que máquinas dotadas de “inteligência artificial” podem em muitos casos ser mais perfeitas do que seres humanos; (3) Cultivo de uma concepção materialista do mundo, com uma visão fatalística da humanidade e da vida, do tipo “tudo é previsível e programável”; (4) Inclinação para uma estratégia de vida baseada na fé computacional de “dividir para conquistar”, ou seja, subdividir sempre um problema em partes menores, a fim de resolvê-las separadamente – o que resulta desastroso quando aplicado a seres humanos; (5) Deterioração dos valores de sociabilidade, uma vez que os computadores são usados individualmente e os contatos via internet, facebook, blogues, skype, emails, etc. permanecem sob a máscara cibernética; (6) Provocação de impulsos tendentes a realizar tudo na vida rapidamente e com variadas ações em simultâneo; (7) Debilitação das capacidades de concentração mental, contemplação e paciência; (8) Degeneração da memória e distorção da capacidade do pensamento criativo, conforme deixa de ser necessário memorizar o que é facilmente arquivável em gigantescas memórias eletrónicas; (9) Incitamento à utopia do “aprender é fácil como brincar”, devido à concepção infantilóide dos softwares; (10) Eventual degeneração de funções neurocerebrais, devido à constante exposição a campos eletromagnéticos nas proximidades da cabeça.

Este é o momento histórico e dramático que estamos a viver, conforme o avanço da miscigenação homem-máquina vem promover uma nova forma de tecnoidolatria anti-humana, obrigando pais e educadores a desistirem da sua função para tornarem-se meras peças de um sistema robótico invisível.

Vale lembrar aqui o conteúdo de dois documentos internacionais: (1) A Declaração Universal dos Direitos Humanos, co-assinada por Portugal junto à ONU, estabelece: «Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos»; (2) A Convenção de Proteção dos Direitos do Homem e das Liberdades Fundamentais, co-assinada por Portugal junto ao Conselho da Europa, estabelece: «O Estado, no exercício das funções que tem de assumir no campo da educação e do ensino, respeitará o direito dos pais a assegurar aquela educação e ensino consoante as suas convicções religiosas e filosóficas».

*Formado pela Escola Superior Livre de Pedagogia Waldorf de Stuttgart
guerreiro@t-online.de

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