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Polêmica

*Lourenço Nisticò Sanches

Com o advento da Internet, conhecida como "Rede Mundial", todos nos encontramos por seu intermédio interligados em tempo real com os acontecimentos em escala mundial – sons e imagens, pasme-se!

E não é apenas com as notícias globais, mas também com as pessoas, estejam elas onde for.

Recordo-me quando ainda menino, morando em uma fazenda localizada em cidade do interior, distante 386 km da capital, tínhamos o "privilégio" de ser um dos poucos a possuir um telefone; até hoje recordo-me do número: 16.

Para conseguir falar com a capital tínhamos que "girar a manivela" do aparelho que ficava preso à parede na sala e, ao ser atendido pela telefonista, solicitar a ligação – esta que demorava dias para ser completada..., com hora marcada.

Atualmente os aparatos eletrônicos de comunicação atingiram nível sequer sonhado naqueles meus tempos de menino: computador, Internet, Skype, telefone celular..., e tudo instantâneo, quase que à mesma velocidade do pensamento, incrível!

Os recursos de comunicação conquistados, e disponibilizados a qualquer pessoa, ultrapassam hábitos e barreiras acrescentando-lhes mais substância, mais conhecimento, mais saber, e ditando alterações comportamentais essenciais ao modus vivendi da sociedade atual.

Todas as informações, ou quase – excluindo-se as "classificadas" – encontram-se disponíveis com o simples "clicar" do teclado em um computador acionando o "titio" Google, não sendo mais restritas apenas a alguns poucos, portanto...

É bem verdade que a facilidade em pesquisar e obter respostas não substitui o raciocínio individual, este que é personalíssimo a cada indivíduo. Serve, contudo, de valioso instrumento para o aprendizado, desde que a dedicação ao estudo, aprofundando-o – como sempre o foi, seja o motivador para a conquista do progresso intelectual; não há, e nunca houve, espaço para a preguiça mental, daninha em qualquer época.

Recordo-me, com certo saudosismo, das idas à biblioteca para fazer minhas pesquisas escolares..., lembro-me ainda da primeira régua de cálculo que ganhei de meu pai, que ensinou-me a manejá-la...

Naquela época os debates de idéias, sempre de forma construtiva, buscavam o esclarecimento, não a discussão de superegos objetivando o prevalecimento desta ou daquela tese, mesmo que sob bases movediças. Havia avidez pelo saber, pelo conhecimento e, através dele, a evolução do ser, independentemente de quem (persona) estivesse ofertando a necessária contribuição àquele esclarecimento.

Ao verificar algumas situações da atualidade chego a pensar que o homem não se preparou suficientemente para as conquistas tecnológicas hoje disponíveis... Muitos querem confrontar conhecimentos lastreados tão apenas em simples "consultas" feitas à Internet esquecendo-se da fundamental importância do estudo pessoal, do raciocínio e da criação de base sólida de conhecimento – independentemente da matéria: pode até ser uma receita de pão doce..., para poder defender de forma consistente sua posição, seu entendimento..., daí o surgimento das polêmicas, ou melhor, de todos que se comprazem em se utilizar desse péssimo instrumento.

Creio que, psicologicamente, tais pessoas devem possuir uma necessidade imensa de auto-afirmação..., quiçá proveniente de algum complexo; deixemos para os especialistas na matéria melhor analisarem.

Ao buscar algum exemplo clássico, encontrei a interessante observação de certo psicanalista:

"Recordo-me de uma paciente em particular, especialista em polemizar comigo, a quem, numa determinada ocasião, expus o meu desânimo em ajudá-la a superar esta situação"

Destaque-se ainda que a polêmica tende a suplantar o diálogo e nesse mister, por relevante ao tema, transcrevo a seguir elucidativo texto do renomado Michel Foucault, importante filósofo, pensador, estudioso do comportamento humano, e professor francês do século passado:

         "O polemista prossegue investido dos privilégios que detém antecipadamente, e que nunca aceita recolocar em questão. Possui por princípio, os direitos que o autorizam à guerra e que fazem dessa luta um empreendimento justo; não tem diante dele um parceiro na busca da verdade, mas um adversário, um inimigo que está enganado, que é perigoso e cuja própria existência constitui uma ameaça. O jogo para ele não consiste, portanto, em reconhecê-lo como sujeito com direito à palavra, mas em anulá-lo como interlocutor de qualquer diálogo possível, e seu objetivo final não será se aproximar tanto quanto possível de uma difícil verdade, mas fazer triunfar a justa causa da qual ele é, desde o início, o portador manifesto. O polemista se sustenta em uma legitimidade da qual seu adversário, por definição, está excluído" (pgs. 225-226).

A polêmica é uma "figura parasitária da discussão e obstáculo à busca da verdade". Ela "define alianças, recruta partidários, produz a coalizão de interesses ou opiniões, representa um partido; faz do outro um inimigo portador de interesses opostos contra o qual é preciso lutar até o momento em que, vencido, ele nada mais terá a fazer senão se submeter ou desaparecer" (pg. 226).

Se o tema é polêmico, o melhor é simplesmente respeitar o que o outro pensa! É ingênuo supor que o polemista está disposto a abrir mão das certezas absolutas e dialogar. Muito pelo contrário, o objetivo é destruir o argumento do outro – no contexto ditatorial objetiva-se anular a liberdade de expressão e/ou eliminar fisicamente o outro.

Não escrevo para fazer cabeça ou converter. Não quero impor a verdade, nem conquistar seguidores. Estou aberto a dialogar e aprender. O melhor critério da verdade ainda é a prática. Na medida em que a polêmica delimita trincheiras instransponíveis e anula o diálogo, não vale a pena polemizar!"

Obs.: O texto é da obra publicada em 1984, "Polêmica, Política e Problematizações" de Michel Foucault, e pela Forense Universitária em 2006.

Não encontraria melhor conclusão para esta crônica:

"Na medida em que a polêmica delimita trincheiras instransponíveis e anula o diálogo, não vale a pena polemizar!" E complementando a lapidar observação de Foucault:

Inexistindo o diálogo, o melhor que se tem a fazer é se afastar.

  

11 de novembro de 2012

 

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