O PADRE EXCOMUNGADO

* Milton Medran

No tempo em que a religião dividia o poder com o Estado, a excomunhão era uma pena duríssima. Ser excomungado significava viver "fora da comunhão", fora da comunidade. O sujeito passava a ser desprezado por todos, privado da companhia de seus irmãos.

            As coisas não são mais assim. Viu-se pelas imagens da última missa rezada por aquele padre da cidade de Bauru, onde ele foi aplaudido. Padre Beto acabou excomungado pelo bispo da diocese, depois de se manifestar a favor do casamento gay. Defendia também o direito à sexualidade das pessoas não casadas. Diferente da Igreja, que só aprova o sexo no casamento.

            Mesmo entendendo as razões do bispo para afastar o padre, tive a impressão de que seus fiéis seguirão com Beto. Que aprovam suas ideias e querem continuar católicos, apesar das normas da Igreja a respeito do sexo, do homossexualismo e da condenação à união de pessoas do mesmo gênero.

            As religiões já não exercem o mesmo poder sobre as pessoas. Mas têm, todas elas, seus códigos de moral. Seus preceitos. Quem a elas se filia, ou lhes jura obediência, como é o caso dos sacerdotes, assume a obrigação de defender suas regras. Porém, a sociedade evolui de forma diferente. Enquanto conceitos morais mudam, a religião segue apegada a regras que os costumes revogaram. Às vezes, padres e pastores afastam-se de suas igrejas por não mais concordarem com suas normas. Padre Beto foi afastado. Para ele, a sociedade, que hoje reconhece os direitos dos homossexuais, está certa e a Igreja errada. Ele achava que poderia mudar isso, permanecendo na Igreja. Terminou excomungado.

 Uma velha frase latina dizia: "vox populi, vox Dei". Isto é: "A voz do povo é a voz de Deus". A Igreja excomungou o padre. Mas, acho que Deus e o povo o absolveram.

 

* Milton Rubens Medran Moreira - Advogado e jornalista - Presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre - RS.

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